quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Sobre nossa prosa com o menino do museu


O Menino Malino chega em Santo André... a internet faiô, e a oralidade prevaleceu... 

Com todo afeto planejamos nossa sonhada Live com Pedro, o Menino do Museu. Queríamos que todos o conhecessem, porque conhecer Pedro é conhecer a si, o povo brasileiro e sua teimosia. Na hora da Live, a internet do Crato não funcionou, ligamos para Pedro e a participação dele foi por telefone. Ainda que o áudio tenha falhado em alguns momentos, a conversa perdurou por mais de uma hora...

Pedro nos encanta não só porque criou o Museu Luiz Gonzaga aos 8 anos de idade, mas porque teima em colocar na centralidade da sua vida, a beleza da cultura do povo nordestino. Pedro traz Luiz, Pedro respeita Januário, Pedro tem a asa branca e a asa solta...

"Furaro o zóio do assum preto pra ele canta mió..." (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, 1950)

O financiamento público não chega, o Estado fura o "zóio" continuamente do povo.  É uma chuva de faltas e uma chuva de sobras. Falta democracia, falta afeto, sobra competição e loucura por consumo, mas ele, o menino malino, ainda com essa "furadera de zóio" perene, canta, canta bonito e alto e seu canto chega em Santo André na prosa que coloca a cultura no seu lugar de centralidade, no seu lugar de dimensão simbólica.

O Velho Lua, o sanfoneiro  Gonzaga de Exu,  vai fazer 108 anos, a saudade é tamanha e o menino do Crato é puro encantamento, carrega consigo as ideias de mil Gonzagas. Gestor  cultural potente, sabido, fala como rei , fala de gestão, tem na cabeça o valor maior do afeto que deve reger nossas relações.

Enquanto as instituições vultosas e elitizadas  tem privilégios e são mantidas com leis de incentivo e  pagamentos de entrada, as ações de base comunitária e pequenos espaços ficam a mercê do tempo. O menino do museu é um desses gestores de uma pequena grande ação de valor simbólico que guarda a memória de um dos  maiores artistas brasileiro que é Luiz Gonzaga. Proseamos com o esse gestor cultural de 15 anos que sonhou com o museu do rei. Fica essa  narrativa e esse imaginário de cultura do povo pra lembrar que no fundo,  o sertanejo é um forte,  de uma sapiência única, sagaz e o menino Pedro é o futuro de tudo isso que chamamos de cultura.

Nossa live foi na oralidade, a prosa persistiu, a internet ainda não chega em todo mundo. Estamos aqui pensando como vida de viajante, quase assum preto, lembrando Gonzaguinha, lembrando de nossos ancestrais, daqueles que pegam na pedra e sabem o valor do peso de carregar a herança nordestina. Lembramos  dos cordéis até chegar na lei Aldir Blanc. Estamos ajudando no controle social na cidade do Crato.  Ainda é pouco. Estamos fora da gaiola e furam nosso "zóio", mas a gente canta e a gente quer  mais ainda! Temos que reconhecer o povo, porque sem o povo não existe cultura, Somos  MASSA, somos restos de estrelas depois da explosão.

 


Texto coletivo pensado na simbologia da cultura MASSA, por Isabel Rodrigues e por Neri Silvestre

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Desgoverno de Bolsonaro







Alexandre Takara*



Nada como digressão pelos acontecimentos recentes para analisar a política do Presidente Jair Bolsonaro. A seguir, alguns de seus pronunciamentos nas últimas três semanas, a partir dos quais, é possível deslindar algumas das linhas mestras de seus pensamentos e ações e, por que não, sua personalidade. Linhas mestras, afirmei, por força de expressão porque, em um ano e meio de gestão, ele ainda não os explicitou. Sua gestão é toda desconjuntada. Um dia, ele afirma e, no dia seguinte, nega. A seguir, alguns fatos que merecem ser analisados.

1) Ele acusou Sérgio Moro, então Ministro da Justiça e Segurança Pública, de haver condicionado a troca do comando da PF à sua indicação ao STF – Supremo Tribunal Federal. A deputada Federal, Carla Zambelli, pede a Moro entregar a Superintendência da Polícia Federal do Rio de Janeiro ao Bolsonaro e ela interferirá junto ao Presidente para designá-lo como membro do STF – Supremo Tribunal Federal – a que Moro declara: Não estou à venda.”

2) O vazio de ideias no discurso pronunciado por Bolsonaro na sua estreia em Davos, Suíça, em 2019. Ele não defendeu teses nem apresentou propostas. Seu discurso durou apenas 6 minutos, mesmo assim reduzidos aos salamaleques. Foi duramente criticado pela imprensa. Além do mais, sua política de relações exteriores é de ofensas e críticas, inclusive a nações tradicionalmente amigas, como a França. Apenas exalta a Donald Trump, presidente dos EUA, um populista da direita, seu paradigma de governo. Risível a tentativa de indicar seu filho, Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo Estado de São Paulo a embaixador do Brasil nos EUA, simplesmente por lá ter vivido uma temporada, saber inglês, cozinhar hamburgueres e sem qualquer preparo em relações exteriores.

3) Interferiu no processo em favor da defesa de seus filhos e de políticos, seus apoiadores.  Sergio Moro, ex-Ministro da Justiça e Segurança, em depoimento à Procuradoria Geral da República, relata um diálogo que manteve com o Presidente: “Moro, você tem 27 superintendências (da Polícia Federal), eu quero apenas uma, a do Rio (de Janeiro).” Por que desta insistência?  Proteger seu filho Flávio de investigações policiais, na época em que era Deputado Estadual pelo Estado do Rio de Janeiro?  Seu homem de confiança e amigo da família, Fabrício Queiroz, cobrava “rachadinha”, um percentual de proventos de seus assessores lotados na Assembleia Legislativa.

4) Demitiu, em plena crise de pandemia, Luiz Henrique Mandetta, Ministro da Saúde, prestigiado pela OMS – Organização Mundial da Saúde e pelos diretores do seu Ministério pelos relevantes serviços prestados no combate à pandemia de coronavírus. Pesquisas de Datafolha revelaram que Mandetta tinha mais prestígio do que ele: 76% em favor do Ministro e 33% do Presidente no início do mês de abril. E 64% dos pesquisados reprovaram a demissão. Uma das mais prestigiadas revistas médicas do mundo, Lancet (Inglaterra, numa das edições de maio), em seu editorial, afirma que a maior ameaça à resposta do Brasil aos desafios de covid-19 é o presidente Jair Bolsonaro. “Ele não apenas continua a semear confusão, desrespeitando abertamente as medidas sensatas de distanciamento e bloqueio físico trazidos pelos governadores estaduais e prefeitos, mas também perdeu dois ministros importantes – Mandetta, de Saúde e Moro, da Justiça”.




5) Aproximou-se e negocia apoio político com o Centrão, cuja prática fundamenta-se no “é dando que se recebe” – prática da velha política que Bolsonaro tanto combateu durante a campanha eleitoral de 2018. Desse grupo, pertenceram os deputados federais, Roberto Jefferson (PTB) e Waldemar da Costa Netto (PR), banidos da Câmara Federal  pela Operação Mensalão, conduzida pelo STF. Além deles, foram cassados mais dez deputados federais, de diversos partidos.

6) Indicou o delegado Alexandre Ramagem, próximo da família Bolsonaro, para o comando da Polícia Federal e foi vetado pelo Ministro, do STF, Alexandre Moraes, porquanto feria os princípios da moralidade, impessoalidade e interesse público, uma vez que o objetivo dele era interferir na Polícia Federal para colher informações sigilosas de investigações para proteger seus filhos, motivo de Celso de Mello, do STF, autorizar investigação a respeito; É grave a suspeita de que Bolsonaro quer o controle sobre o aparato da Polícia Federal no Estado de Rio de Janeiro para a proteção de seus filhos.  

7) Bolsonaro perde apoio dos que o elegeram, como o MBL – Movimento Brasil Livre. Um de seus líderes, Kim Kataguiri, hoje deputado federal, acusa o Presidente de ter cometido “estelionato eleitoral” , por ter prometido, durante a campanha política de 2018, o combate à corrupção; e a Deputada Federal, Joice Hasselmann, antes do grupo do Presidente, agora o acusa de crime de responsabilidade por falsidade ideológica;

8) Uma pergunta ainda aguarda resposta: por que Bolsonaro se recusa a revelar o resultado dos exames médicos, a que se submetera, no Hospital do Exército, após sua viagem aos EUA, em março, acompanhado de 22 assessores, todos, ou quase todos, vítimas da pandemia de coronavírus e ele, o único ileso? Afinal, essa informação é de interesse público porque ele é o Presidente da República. O jornal, O Estado de São Paulo, solicitou esses exames médicos judicialmente que, embora aprovado, Bolsonaro continua negando (os resultados dos exames). Por quê?

9) Apesar da resistência de Sergio Moro, o Presidente transferiu o COAF -Conselho de Controle de Atividades Financeiras – do Ministério de Justiça e Segurança Pública para o Ministério da Economia. A finalidade desse órgão é disciplinar, aplicar penas administrativas, examinar e identificar ocorrências suspeitas de atividades ilícitas, relacionadas à lavagem de capitais. Essa transferência, conforme previsto por Sérgio Moro, está enfraquecendo essa fiscalização;

10) O Presidente assinou a Lei Anticrime, totalmente ou quase totalmente desfigurada pelo Congresso, como forma de proteger e livrar deputados suspeitos da Operação Lava Jato em flagrante desrespeito ao que prometia na campanha eleitoral de 2018.

11)  Jair Bolsanaro age como se fosse Imperador nos moldes da Primeira Constituição Brasileira, de 1824. Conforme o artigo 99, “a pessoa do Imperador é inviolável e sagrada” e “não está sujeito a responsabilidade alguma.” Ou seja, o Imperador não respondia pelos seus atos. É o que depreende da afirmação de Bolsonaro: “quem manda sou eu” “Eu sou o Presidente.” “Eu sou a Constituição.” “Tenho a caneta.” “Cala a boca”. Esse “cala a boca” foi sua reação à pergunta de um jornalista. Essa agressão à imprensa é inaceitável e repercutiu, negativamente, pelo mundo. Ele está testando, o tempo todo, os limites da ordem pública e se aproxima da ruptura institucional em direção à ditadura. E se contestado, “o senhor não pode agir como está agindo”, ele desafia: “E daí?” Esse “e daí?” foi elevado à categoria de ação política porquanto Bolsonaro repete insistentemente. Esse “e daí?” revela outro traço de sua personalidade: a insensibilidade. Indagado sobre o que pensava sobre o número cada vez maior de vítimas fatais da pandemia e de vítimas hospitalizadas na luta pela sobrevivência, indaga: “E daí?” Esse pergunta revela insensibilidade e desrespeito aos familiares dos falecidos.

12) Dia 3 de maio, Jair Bolsonaro participou, outra vez (o anterior foi em 19 de abril), do ato, na Praça dos Três Poderes, contra o STF e o Congresso. Seus apoiadores, de verde e amarelo, cores/símbolo do bolsonarismo, solicitavam o fechamento de ambas as instituições e o retorno do AI-5. Ele e seus adeptos contrariaram recomendações de isolamento social como forma mais eficaz de combater a pandemia de coronavirus, ao se aproximar do grupo que o apoia. Declarou: “Tenho certeza de uma coisa: nós temos o povo ao nosso lado, nós temos as Forças Armadas ao lado do povo, pela lei, pela ordem, pela democracia e pela liberdade.” No dia seguinte, os Generais contradisseram o Presidente: ele tentou usar prestigio dos militares, o que provocou incômodo.  A Aeronáutica, o Exército e a Marinha estão sempre na defesa da independência dos poderes e da Constituição. Em virtude de Bolsonaro ter participado, em 19 de abril,  da manifestação pública que pedia intervenção militar no Congresso e no Supremo Tribunal Federal, a ABI – Associação Brasileira de Imprensa -  encaminhou pedido de impeachment de Jair Bolsonaro ao Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, fundado no argumento de que o Presidente “inequivocamente, incitou a desobediência à lei e infração à disciplina (...)”.   A propósito, Bolsonaro declara haver mobilização contra ele, a começar pela sua versão da facada de Adélio Bispo, em Juiz de Fora, MG, durante sua campanha eleitoral, em setembro de 2018. Adélio o fez em nome de mandantes, ocultados pela   Polícia de Minas. Segundo o então candidato, esses mandantes queriam afastá-lo das eleições  numa visão  bem típica  de teoria de conspiração.   

Muitos outros aspectos do passado podem ser evocados para acentuar o seu caráter autoritário com propensão à ditadura. Lembremo-nos da homenagem que Bolsonaro prestara   ao Coronel Brilhante Ustra ao votar pelo impeachment da presidenta da Presidenta Dilma Rousseff, em 2016. Ustra foi torturador a serviço da ditadura (1964/1958). Por oportuno, Miguel Reale Junior, professor da Faculdade Direito do Largo de São Francisco e um dos autores do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em parceria com a advogada e professora da mencionada Faculdade, Janaína Paschoal, também advogada e, hoje, Deputada Estadual, lembra, no seu artigo Pandemônio, publicado em O Estado de São Paulo, dia 2 de maio, que Bolsonaro no programa Câmera Aberta, da Band, em 1999, indagado se fosse Presidente, fecharia o Congresso, respondeu: “ Não há a menor dúvida. Daria golpe no mesmo dia”. E, nessa entrevista, defendeu a tortura e disse que o Brasil “só vai mudar, infelizmente, quando partirmos para a guerra civil(...), matando uns 30 mil (...) Vão morrer alguns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra morrem inocentes.” Essa entrevista revela sua tendência à ditadura.  
                  
13) Na mencionada manifestação de 3 de maio na Praça dos Três Poderes, repórteres de O ESTADO DE SÃO PAULO foram ameaçados e feridos pelos apoiadores de Bolsonaro e autoridades manifestaram-se contra esses agressores. Carmen Lúcia, do STF, afirmou: “quem transgride e ofende a liberdade de imprensa ofende a Constituição, a democracia e a cidadania brasileira. É inaceitável, é inexplicável que ainda tenhamos cidadãos que não entenderam que o papel de um profissional da imprensa o papel que garante, a cada um de nós, poder ser livre”. Rodrigo Maia, Presidente da Câmara Federal:” Cabe às instituições democráticas impor a ordem legal a esse grupo que confunde fazer política com tocar o terror (...) Hoje, jornalistas agredidos. Amanhã, qualquer um que se opõe à visão do mundo deles (pode ser agredido.). Associação Nacional de Jornais (ANJ): “ Além de atentarem de maneira covarde contra a integridade física daqueles que exerciam suas atividades profissionais, os agressores atacaram frontalmente a própria liberdade de imprensa.  Atentar contra o livre exercício da atividade jornalística é ferir também o direito dos cidadãos de serem livremente informados.” Segundo a imprensa escrita e televisiva, os agressores foram identificados e serão processados. Por incrível que pareça, Bolsonaro nega ter havido agressões aos jornalistas, embora fotografias, divulgadas pela imprensa, revelem o fato. Bolsonaro só vê o que lhe interessa e nega o que o denúncia. Ele distorce os fatos. Os generais estão, o tempo todo, apagando incêndio. Até quando? A propósito, há anos, o Presidente declarou que nunca existiu ditadura no período de 1964/1985.

Tantas incoerências, agressões e contradições despertam o interesse dos cidadãos pelos traços de personalidade do Presidente. Intelectuais da área de humanas chegam a consultar tratados de psiquiatria e a admitir transtornos de personalidade. Alguns psiquiatras chegam a classificá-lo no CID-10 – Classificação Internacional de Doenças, da OMS – Organização Mundial da Saúde – relativo a doenças mentais, como a indiferença insensível aos sentimentos alheios (vide “E dai?” em desrespeito a dores dos familiares enlutados, vítimas da pandemia”; baixa tolerância e desrespeito a regras ( vide seu encontro com seus apoiadores na Praça dos Três Poderes nos domingos de 19 de abril  e 3 de maio que exigiam o fechamento da Câmara Federal, do Senado, do Supremo Tribunal Federal  e a retomada do AI-5 (Ato Institucional) que vigorou durante a ditadura militar (1964/1985); a incapacidade  para assumir a culpa e a propensão a culpar os outros ( vide atribuir o desgoverno da sua gestão ao Congresso Nacional e ao STF), quando ele mesmo compromete o seu governo; traços de paranoia, o levam a construir uma teoria de conspiração,  segundo a qual, a facada que lhe dera Adélio Bispo, durante a campanha eleitoral de 2018, em Juiz de Fora, MG, foi a mando de um grupo oculto que desejavam eliminá-lo das eleições. Além da facada de Adélio, Bolsonaro vê  outra conspiração: a negação de  Alexandre Moraes, do STF, à nomeação de Alexandre Ramagem, próximo da sua família, ao cargo de Diretor Geral da Polícia Federal, como tentativa de defender seu filho, Flávio, da acusação de rachadinhas”, quando deputado estadual no Rio de Janeiro. Essa nomeação fere os princípios de impessoalidade, de moralidade e interesse público; Critica e se opõe a Rodrigo Maia, presidente da Câmara Federal, por objetar medidas propostas pelo Executivo por ferir princípios constitucionais); narcisista (vide  encontros com seus apoiadores para colher aplausos nos mencionados encontros, o que revela sua autoglorificação).

O Presidente declara-se apoiado pelas Forças Armadas. A resposta: o Exército, a Marinha e a Aeronáutica apenas obedecem incondicionalmente à Constituição. O Presidente é apenas o Comandante, enquanto for inquilino do Poder. Aqui, uma crítica ao Ministério da Defesa: deveria condenar manifestações em favor do retorno do AI-5 e o fechamento do STF e Câmara Federal e intervenção militar. Esse Ministério deveria ter condenado a manifestação e recomendar ao Judiciário a   investigação para identificar os organizadores e financiadores desses movimentos.

O desgoverno de Bolsonaro é evidente e tende a agravar-se e preocupa as nações latino-americanas. Mais de 30 pedidos de impeachment foram encaminhados ao Presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia. Este os engavetou por dois motivos: o primeiro, a inconveniência por motivo da pandemia de coronavírus que ceifou milhares de vítimas e agravou ainda mais a cambaleante economia; o segundo: Bolsonaro aproxima-se do Centrão e negocia apoio em troca de cargos. São os seguintes os partidos que o compõem: PSL, PP, PR, PSD, PRB, PROS, SD, PTN e AVANTE. Contam atualmente com 200 deputados federais, uma barreira, por ora, intransponível para o impeachment. Bolsonaro enterrou a promessa de sua campanha de combater a corrupção e a velha política, representada pela prática de “dá lá, toma cá”, fundada no “preceito franciscano” de “é dando que se recebe”.
                               

Concluindo. Segundo CID-10, classificação Internacional de doenças  da OMS, organização especializada da ONU, são os seguintes os traços de personalidade do Presidente Jair Bolsonaro: indiferença insensível aos sofrimentos alheios; baixa tolerância e desrespeito a regras; incapacidade para assumir a culpa e a propensão para culpar os outros; traços de paranóia caracterizada pela desconfiança, perseguição e conceito exagerado de si mesmo a ponto de autoglorificação.


******************************


* É formado em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia Política de São Paulo, ingressou no magistério secundário e posteriormente no ensino universitário. Foi professor de História do Colégio Singular em Santo André e Antropologia Cultural na UMESP- Universidade Metodista de São Paulo, foi Secretário da Cultura de Santo André.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Na trilha de Macunaíma: a cultura para e com o povo



          "(...) água mole
           pedra dura
           tanto bate que não restará nem pensamento (...)"

Gilberto Gil

      
   Feche os olhos e imagine cenas em sua cabeça que remetam à ideia de cultura. O que vê? O que pensa quando pensa em cultura?

         Alguns anos atrás, na quebrada do Jardim Santo André, nem sonhávamos com a potência da cultura, pelos formatos e pelo elitismo colocados nesse campo. Era comum ouvir que cultura é coisa de gente rica e que aos pobres caberiam somente seguir a normatização que era criada e reproduzida pela lógica do mercado. A cultura tinha um lugar, geralmente centralizado,  pensada como a garantia do acesso a shows, teatro, música erudita, apreciação de quadros de artistas renomados e inacessíveis. Artistas eram confundidos como os únicos agentes culturais. Claro que arte é cultura, mas não só. Um equívoco restringir o campo da cultura às manifestações artísticas. Pensar assim é empobrecer a cultura. Felizmente temos figuras icônicas no Brasil que nos ajudam a sair da ignorância. Gilberto Gil é uma destas pessoas.  Enquanto Ministro da Cultura, a frase que acompanhou sua gestão foi "a criatividade do povo brasileiro é nosso maior patrimônio". Gil defendia que, em tempos de globalização, em que tudo caminha para a uniformização, é preciso atentar-se, dar espaço para o diverso, para aquilo que não se uniformiza, afinal, a imaginação do ser humano é permanente, está em constante movimento.

         Em 2009, no Jardim Santo André, tivemos a oportunidade de acessar o programa Cultura Viva do Governo Federal, uma iniciativa que fez parte da gestão de Gil, quando ministro. Escrevemos um projeto e participamos de um edital que daria início a uma viagem sem volta no campo da cultura. Uma das viagens mais importantes das nossas vidas, porque permitiu a conquista de uma visão mais abrangente de que a cultura é tudo aquilo que o povo faz. Esse projeto foi formativo. Enquanto participávamos dele, nossa visão sobre diversos aspectos da vida social também foi transformada. 

         Passando o tempo, tivemos a oportunidade de estudar, ler, conhecer e desenvolver práticas que nos levariam a ampliar nosso entendimento do que é cultura e qual deveria ser o papel do Estado nesse campo.

Já se passaram mais de dez anos,  desde a nossa primeira participação neste Projeto. De lá pra cá, a relação no meio social também mudou, já que passamos a compreender melhor a importância  da participação efetiva nos Conselhos da cidade. Começamos a fazer parte do Conselho de Cultura e inúmeros debates foram travados em defesa de um conceito de cultura mais abrangente, que desse conta de incluir toda a cidade, todas as pessoas, não somente a elite e não somente o centro.


         Interessante como as políticas públicas inclusivas levam um tempo para acontecer. Só agora atingimos alguma maturidade no debate da cultura, que só foi possível por meio da participação ativa no Conselho.  Ao recuperar esse espaço tão importante, percebemos que a discussão tem origem no direito constitucional em seu artigo 215, "o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais."

         Mudanças na nomenclatura e no formato do Conselho aconteceram, porém as prerrogativas permanecem. Hoje, o conselho de políticas culturais continua deliberativo, consultivo e normativo, o que permitiu mudanças importantes como o último edital do Fundo de Cultura que permite que o Estado fomente iniciativas culturais de forma mais isonômica. Neste edital, em curso na cidade de Santo André, metade dos recursos devem destinar-se as iniciativas culturais da periferia, e metade, às iniciativas culturais do centro. Para que o edital tenha sucesso, é preciso rememorar as sábias palavras do sociólogo José Marcio Barros: “a cultura refere-se tanto ao modo de vida total de um povo – isso inclui tudo aquilo que é socialmente aprendido e transmitido, quanto ao processo de cultivo e desenvolvimento mental, subjetivo e espiritual, através de práticas e subjetividades específicas, comumente chamadas de manifestações artísticas.”

         A  partir da cidade de Santo André descrevemos o que tem sido a luta por nossos direitos culturais e como está se dando a participação da população por meio dos conselhos de políticas culturais, do Fundo de Cultura e dos Fóruns de Cultura, ao longo destes 3 anos com a Secretária Simone Zárate. Podemos dizer que os embates foram duros, porém democráticos. Não havia uma política cultural em construção, ao assumir a secretaria, Simone  pratica seu aprendizado de longa data. Somos o segundo mandato da nova versão do conselho de políticas culturais eleito.

         O Conselho Municipal de Políticas Culturais, órgão colegiado consultivo, deliberativo e normativo, integrante da estrutura básica da Secretaria de Cultura e Turismo, com composição paritária entre Poder Público e Sociedade Civil, se constitui no principal espaço de participação social institucionalizada, de caráter permanente, na estrutura do Sistema Municipal de Cultura, e tem como principal atribuição atuar, com base nas diretrizes propostas pela Conferência Municipal de Cultura, na elaboração, acompanhamento da execução, fiscalização e avaliação das políticas públicas de cultura, consolidadas no Plano Municipal de Cultura.

         Juntando todos os aspectos democráticos e de participação da sociedade civil dentro dos conselhos, começamos a desenhar a política cultural local de forma compartilhada e a sociedade civil tem sido fundamental para consolidar uma política de Estado, trazendo aspectos como a transparência, a isonomia e a retomada do nosso sistema de cultura local. Queremos dizer que o caminho está sendo trilhado e Santo André tem tido os seus avanços com as políticas estruturantes em curso, com um Sistema Municipal legitimado, Conselhos atuantes, Plano Municipal e Fundo de Cultura.

         O Fundo de Cultura, como já mencionado, está com inscrições abertas até 15 de janeiro de 2020. É algo a ser valorizado, pois apesar do contexto nacional não estar favorável as políticas culturais, em Santo André tem sido diferente. Percebe-se vontade política em se construir iniciativas ampliadas e democráticas. Há pouco tempo atrás, os fundos não eram geridos de forma aberta, hoje por exemplo está se consolidando a política de editais, respeitando a cultura em seus diversos aspectos, oportunizando a participação da criatividade do povo, como já defendia Gilberto Gil há uma década. Com um simples edital, um griô, pode participar do edital do Fundo.

         Para complementar, explicamos a importância deste agente cultural: "griô ou mestre(a) é todo(a) cidadão(ã) que se reconheça e seja reconhecido(a) pela sua própria comunidade como herdeiro(a) dos saberes e fazeres da tradição oral e que, por meio do poder da palavra, da oralidade, da corporeidade e da vivência, dialoga, aprende, ensina e torna-se a memória viva e afetiva da tradição oral, transmitindo saberes e fazeres de geração em geração, garantindo a ancestralidade e identidade do seu povo. A tradição oral tem sua própria pedagogia, política e economia de criação, produção cultural e transmissão de geração em geração”. A política cultural vigente hoje na cidade de Santo André oportuniza e fomenta desdobramentos das ações griôs e isso tem nome. Chama-se democratização da cultura.

         Os espaços públicos como Casa da Palavra e Casa do Olhar terão seus editais próprios, além destes, outros editais em diversos outros campos culturais também estão sendo assegurados, porém, o Fundo de Cultura tem um diferencial, foi um processo construído de baixo pra cima literalmente. Antes de sua conclusão, a sociedade civil por meio dos fóruns fez um amplo debate, sugeriu e consolidou uma proposta de fato democrática.

         Podemos dizer hoje, que Santo André é um oásis nas politicas culturais, porém é preciso participar, opinar, convidar pessoas, afinal, mais importante que consolidar ações é consolidar a democracia. Para isso é primordial incidir nas políticas, manifestar nossas vontades, fazer valer nossa voz e nossa vez. É preciso aproveitar esse espaço, lutar e consolidar novas políticas, ocupar outros conselhos, juntar  as pessoas e fazer coro, acreditar que a cultura é o campo das liberdades e da melhoria de vida coletiva.

Neri Silvestre, macunaímico
Isabel Rodrigues, na trilha

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

CULTURA - como forma de resistência e redenção política, econômica e educacional



Rodolfo Tokimatsu*  



Contrapondo-se a Leon Trotsky, quando afirmou, ainda no final dos anos 1930, que “diante da mediocridade da sociedade ocidental, a melhor arma é o silêncio, portanto, não é tempo de uma nova cultura”... nós da Quebrada, no entanto, afirmamos que sim, é tempo de uma nova cultura, e mais, de uma cultura permanente que não morre, mas se renova e se inova e se fortalece; é diante desse apogeu da mediocridade que as sociedade ocidental mergulha, sobretudo, a sociedade brasileira, que não só é tempo, como é necessária uma nova cultura, com todas as culturas unidas e integradas incluídas e respeitadas, como única forma viável de se bater de frente a essa onda de mediocridade que, ao que parece, toma ares de verdade absoluta para uma maioria expressiva da sociedade. Atravessamos um período política e culturalmente nefasto, um prenúncio de barbárie e retrocesso histórico, que é semeado pelas redes sociais, no Brasil, desde 2013, a princípio, mascarado como um protesto contra o aumento da tarifa do transporte público e, posteriormente, contra o governo de tendências progressistas vigente, propagando, em contrapartida um discurso conservador e contra as reformas sociais, reivindicando desmantelamento de programas sociais, clamando pela volta de políticas ultrapassadas e autoritárias, como o regime militar e propagando discursos de ódio, a princípio, contra o pensamento da esquerda, voltado às classes menos favorecidas, propondo o fim dos direitos trabalhistas e da aposentadoria para os trabalhadores, o desmantelamento do serviço público, em benefício aos interesses empresariais privados, gerando um argumento mentiroso de que o funcionalismo público concursado e um suposto excesso de direitos da classe trabalhadora e dos aposentados seriam a causa de uma suposta crise do país e engrossando esse discurso com ideias e propostas racistas, homofóbicas, machistas, misóginas, anti-intelectualista, anticultural e a todos que abrangem as conquistas sociais, resgatando, no grosso da população todo seu ódio e preconceito então latente, jogando a população contra seus próprios semelhantes. Nesse “modismo” da demonização, dois elementos essenciais para a formação da sociedade e do indivíduo e para a construção da nação, se veem mais atacados, tanto moral, quanto economicamente- a Cultura e, em especial, a Educação. Assistimos ao desmantelamento progressivo da escola pública desde as últimas três décadas, quando governos privatistas, comprometidos com interesses individuais e o capital internacional promoveu uma avalanche de “privataria”, atingindo todos os setores públicos, desde a educação, até a saúde, passando pelas indústrias estatais essenciais para a economia do país e provocando uma crise enorme não só na economia, mas na saúde, na educação e na cultura, setores que nunca deveriam estar nas mãos de interesses econômicos privados, sejam estes nacionais ou multinacionais. Porém, ultimamente, com a ascensão dos governos progressistas eleitos entre 2002 e 2014, o Brasil consegue, em parte, sanar essa crise de ordem econômica e cultural, desenvolvendo programas sociais de renda mínima, investindo em infraestrutura em locais antes esquecidos pelo poder público, quitando a dívida externa e promovendo alguns avanços na área de educação e cultura, como as políticas de diversidade cultural e educacional e o sistema de inclusão nas escolas e os pontos de cultura, dando voz à periferia e às comunidades com pouca voz, ou nenhuma, fomentando o resgate da potencialidade dos povos que compõem essas comunidades. Porém, essa onda progressista foi banida do governo por ações de ódio, calúnias, mentiras e ameaças de todo o tipo contra pessoas ligadas ao governo e às minorias, como negros, indígenas, LGBT, quilombolas, Sem Terra, Sem Teto, sindicatos, mulheres, etc. Agora, eleito o novo(?) governo, esse retrocesso cresce consideravelmente, com propostas toscas, beirando o absurdo, como combate a uma suposta “ideologia de gênero”, que, segundo os lacaios dessa barbárie, “ensina as crianças a mudar de sexo”, entre outros absurdos. Propõem retrocessos educacionais como a volta de disciplinas como Educação moral e civismo, propõem, também, acabar com disciplinas essenciais à formação do caráter social do indivíduo, como história, geografia, filosofia, sociologia, etc., em benefício a um discurso equivocado, mal intencionado, de caráter belicoso e falso- moralista de preconceitos e ódio, que vêm prontos à sociedade como uma verdade redentora, que vem para banir toda aquela ideologia infernal que estaria sendo propagada pelo ensino público e pela gente que faz cultura. Com isso, o profissional da educação é demonizado e falsamente posto como inimigo da família, da moral e dos bons costumes e seu trabalho, cada vez mais desvalorizado, o serviço público é sucateado e os acordos fisiologistas e clientelistas com a iniciativa privada com o interesse geopolítico de alguns países do dito primeiro mundo crescem descomunalmente e acabam por determinar os rumos políticos, econômicos e culturais do país. Esse processo de mediocrização da sociedade reduz ainda mais o conceito amplo e abrangente do termo “cultura”, limitando-o a um ou outro segmento cultural, embaçando uma visão mais ampla e global do termo, criando uma ideia de cultura simplista e superficial, ao sabor do senso comum. Assim, “cultura” fica sendo para alguns, “algo ligado à educação instrutiva, ao intelectualismo”, outros, “às artes e manifestações folclóricas”, e, ainda, a “cultura de comunicação de massa”,mas ignorando o poder abrangente que essa palavra possui e prejudicando toda a nação e um povo que produz cultura, em todos os sentidos. Essa visão estreita, para não dizer cega em relação à cultura, ao invés de fomentar a produção e a justa distribuição cultural para todo o povo, cria segmentos elitizados que se destacam socialmente e usufruem de regalias e mamatas dos subsídios que deveriam fomentar a cultura de um modo geral. Assim, surgem lobbies de artistas, educadores, intelectuais, empresários, todos querendo “abocanhar” uma fatia desse amplo “bolo cultural”, que na verdade é uma visão ínfima de algo tão abrangente, mas que acaba por consumir recursos que poderiam criar uma economia popular e forte, geradora de renda, motivadora da economia e angariadora de impostos, sobretudo. Nós, da Quebrada, no entanto, sabemos que a cultura é muito mais que isso, mesmo porque somos produtores e, ao mesmo tempo, produzidos por uma ou várias culturas interligadas. Para o professor Victor Vich, a cultura é “a soma do que produzimos, como produzimos e como somos produzidos. É a soma de ‘saberes e fazeres’...”, portanto, um termo abrangente, que carece de muita vivência cultural e vontade política para torná-lo prático e tornar o povo autônomo e soberano. Vich ainda salienta que “ somos seres culturais, porém, alienados de nossa própria produção cultural”. Essa “alienação”, à qual se refere Vich, não significa o que o senso comum entende por tal, isto é, pessoas alheias ou ignorantes da realidade cotidiana, mas, numa concepção marxista, uma privação de si e dos seus, por exemplo: Um carro com motor alienado significa que esse motor está em outro carro. O mesmo ocorre com o povo que produz cultura, mas esse produto é apropriado por terceiros. O trabalhador é alienado do fruto de seu trabalho porque a mais- valia apropria-se desse fruto para o patrão, ainda que não tenha sido este quem trabalhou para produzi-lo. No programa “Jornalista desempregado”, produzido pela Careta Filmes, Nery Silvestre, em entrevista, nos fala dessa alienação da cultura pelo povo, dizendo que “ a cultura pode (e deve) gerar trabalho e renda, na potencialidade da pessoa, dentro das suas possibilidades”. Cultura é tudo o que um povo produz, portanto, não se limita à arte e ao ensino. Olhar por esse viés, além de limitar o conceito de cultura, o elitiza e transfere o poder cultural da grande massa para uma pequena elite. A cultura, em toda sua abrangência, gera trabalhos e produtos culturais, talentos, artes e obras, saberes e fazeres. Portanto, gera trabalho, economia e renda. Para Antônio Rubin, essa geração de renda e economia não significa que a cultura vá se submeter a um monopólio da comunicação, ao patrocínio da iniciativa privada, ou à tutela do poder público, porém, esses setores poderosos devem colaborar com a cultura da sociedade, pois fazem parte desta, é sustentado por esta e foi eleito por esta. Rubin enfatiza que a cultura faz sua auto gestão e o mercado de cultura é a própria gestão cultural que administra o produto cultural e não o patrocínio dessas elites. O povo que faz cultura não “mama nas tetas do estado”, ou se beneficia da “caridade” da iniciativa privada, quando angaria algum recurso para promover alguma obra cultural, mas esses poderes devem ceder esses recursos, porque fazem parte dessa sociedade e é sustentada e eleita por esta. Nestes tempos difíceis que atravessa o país e, em especial, a cultura, pela deturpação de má fé de todos os conceitos e termos para “adestrar” o senso comum, este inimigo da educação e da cultura, encaremos a cultura, em todas as suas abrangências, como única forma de resistência a esse limiar de ideias e atitudes neo- fascistas, por parte do governo eleito e de seus seguidores, ao mesmo tempo em que é o clamor do povo ao que é seu por direito e ao direito do que é seu. A cultura, portanto, propõe um resgate da dignidade do povo, dando poder a este de fazer sua auto gestão e administrar sua criação e produção, gerar sua própria economia, livre de “atravessadores culturais” ou atrelamentos a poderes públicos ou privados. Nery Silvestre enfatiza que “cultura não é status, glamour, frescura ou preciosismos. É, antes, fruto de trabalho e geradora de trabalho. É economia e geração de renda. É desenvolvimento de potencialidades e fomentação de ações populares, Não é e não tem a pretensão de ser, ou fazer uma revolução. É apenas a afirmação de um povo, a demonstração de sua capacidade, a criação de valores e produção de bens materiais e simbólicos. O povo quer apenas o que é seu de direito!”. 

*  Artista multimídia e correspondente da Quebrada - (TomMix Bala)

quarta-feira, 13 de junho de 2018

SOBRE CULTURA E DIREITOS HUMANOS


Marcelo Dino Fraccaro





A importância da inter-relação entre Cultura e Direitos Humanos está devidamente explicitada nos principais documentos internacionais existentes. Desde a Carta das Nações Unidas composta pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, passando pelos Pactos Internacionais dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e dos Direitos Econômicos Sociais e Culturais (PIDESC), e culminando com as diversas declarações e instrumentos internacionais subsequentes, a questão, abrangente e complexa, visa garantir o efetivo respeito, proteção e promoção desses direitos nos mais amplos aspectos.

Também na Constituição Federal de 1988, efetivamente em seu artigo 215 – “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais...” - o Brasil, signatário de todos os acordos e instrumentos internacionais já citados, busca garantir os direitos culturais.

Todavia, embora representados e enfatizados em tais instrumentos formais, é reconhecida a dificuldade em se garantir em âmbito nacional o necessário respeito e garantia desses direitos de forma universalizada à população.

Embora há a consciência de que direitos representados em instrumentos formais não são efetivamente respeitados no Brasil – somos um dos países onde mais se verifica o assassínio de defensores dos Direitos Humanos em todo o planeta – é notória a contradição entre garantia formal de direitos no país e o efetivo respeito, proteção e promoção desses mesmos direitos. A desigualdade gritante de acesso às liberdades democráticas corrobora esta contradição, como o acesso desigual à justiça, por exemplo, por parte dos diferentes estratos da população, assim como de serviços básicos como saúde, saneamento entre outros verificados como carências para a maior parte dos habitantes.

Na vida cultural do país a contradição se repete, e em certos aspectos, aqui para o que nos interessa mais diretamente, se acentua. Nossa tradição nesse campo nos demonstra como a cultura é tratada de forma marginal não apenas por agentes públicos como também, e principalmente por amplos setores de nossa sociedade. A cultura é sempre vista como algo assessório, desimportante, secundário. Pior que isso é instrumentalizada e distorcida na busca por resultados mercadológicos da indústria cultural e seus mecanismos, tudo transformando em entretenimento e lazer desprovido de sentido.

Na escalada conservadora verificada no momento social e político que vivemos a Cultura e os Direitos Humanos passam a sofrer ataque ainda mais frontal. A desconstrução dos avanços mínimos obtidos no campo dos direitos civis e políticos, assim como os econômicos, sociais e culturais ganha cada vez mais entre nós, promovida amplamente por setores institucionais e com apoio da iniciativa privada e os meios de comunicação concentrados nas mãos de poucas empresas deste segmento. É a indústria cultural elevada à potência tal que até aqui não havíamos experimentado.

O avanço das forças conservadoras nesta segunda década do século XXI, sabemos, não é privilégio nosso, pelo contrário ganha contornos mais ou menos traumáticos em todo o mundo. O atual ordenamento político, ideológico, econômico planetário contribui sobremaneira para as evidências que aqui esboçamos. Porém, numa sociedade como a nossa que não atingiu minimamente o status de Estado Democrático e de Direito, ou na melhor das hipóteses alcançou por breve período um lampejo do que poderia vir a se constituir como tal, as desigualdades assumem características ainda mais trágicas.

Por outro lado, alimentadas pelo ódio de classe promovido pelos mesmos setores conservadores de sempre, nossas diferenças culturais, sociais, raciais, religiosas - diversidade que potencialmente se apresenta como nossa maior riqueza como povo - passam a sofrer ferozmente a ação de uma sociedade cada dia mais intolerante e despótica. A desconstrução em curso, mais que ação de hostes intolerantes e desconexas é parte de projeto mais amplo de enfraquecimento de nossa identidade como nação e de nossas possibilidades nos campos interno e externo. Em qualquer situação, histórica, econômica, geopolítica, a dominação de um povo via sua desconstrução e colonização cultural é a mais nociva forma de dominação.

A parte toda a tragédia de nossa história com a colonização e a escravidão, nossa trajetória como país jamais enfrentou desafios mais exigentes. Nos encontramos diante de verdadeira encruzilhada no longo processo de nossa formação, onde escolher um caminho a seguir não se dará de forma que não seja de algum modo traumática. Porém, nada poderá ser mais traumático do que a escolha de não seguir nenhum caminho. Lutar por nossos direitos e por nossa identidade cultural, independente da aceitação de institucionalidades e instrumentos formais é certamente a escolha de um caminho a seguir.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Manifestação pelo resgate da cultura de SBC

Reproduzimos abaixo o manifesto do movimento cultural de São Bernardo do Campo, contra a gestão da atual administração pública (Prefeito Orlando Morando) na área da cultura. Foi criado um evento na rede social Facebook convocando para uma manifestação para o próximo dia 08.02.2018, na Praça Brasil, Centro, SBC, com início às 18h00. Até o momento desta nossa publicação já contava com mais de 800 adesões e diz o seguinte:

Manifestação pelo resgate da cultura de SBC

 “Não dá mais pra nós, agentes culturais de SBC ficarmos em silêncio com o que vem acontecendo.

Desde que Orlando Morando chegou, não se vêem mais eventos de hip-hop por aí. Não se vêem mais eventos de reggae por aí, não se vêem eventos de rock/hardcore/metal como antes, e nem de nenhuma outra forma de cultura que não seja sertaneja/gospel/popular. O CLAC (Centro Livre de Artes Cênicas) foi extinto. O CAJUV funciona de modo precário. Não existem mais eventos na maior pista de skate da américa latina.

O prefeito constituiu o conselho municipal de cultura sem nenhuma consulta aos artistas da cidade. Os conselheiros são pessoas de pouco envolvimento cultural na cidade.

E a última é que, para realizar eventos em parques municipais da cidade, como a pista de skate, à partir de agora, teremos que pagar aluguel para a prefeitura.

Como se imposto não existisse. É uma verdadeira máfia, loteando São Bernardo do Campo e distribuindo lobby e lucros.

Tem secretário do meio ambiente vendendo cargos no seu gabinete. Tem secretário de cultura que nunca trabalhou no meio cultural. Tem a volta as aulas canceladas por falta de uniformes e merenda, mascarada de "prevenção à febre amarela". Tem prefeito que finge que não sabe de nada disso

Motivos fora da cultura já existem de sobra. E dentro?!

Ano passado durante a realização de mais um evento do InI Sounds Rastaman Sounds no Pq. São Bernardo, a GCM chegou, reprimiu, pegou todos os equipamentos e levou embora.

Isso aconteceu mais algumas vezes, por exemplo no REGGAE no D.E.R. Se eles não aprovam eles vem, reprimem, retiram o equipamento, levam embora e pra retirar só com multa.

Já no Riacho Grande temos mega-eventos financiados pela SABESP acontecendo, com artistas de cachês milionários. Eles alegam que nossos eventos incomodam. A sujeira, o barulho, o trânsito, incomodam os moradores igualmente. Porém, sabemos muito bem porque certos eventos acontecem e outros não.

Conforme o próprio secretário de cultura disse, eles querem privatizar os parques da cidade.

Será que eles vão fazer tudo isso sem questionar antes as pessoas que fazem cultura na cidade desde antes deles chegarem ao poder??!

E pior: será que nós vamos ficar assistindo tudo sem se mexer?!

CONVOCAMOS TODAS AS FRENTES CULTURAIS DE SBC E DO ABC TODO PARA UM ATO DE MANIFESTAÇÃO PELO RESGATE DA NOSSA CULTURA.

NOS REUNIREMOS QUINTA-FEIRA (08/02) ÀS 18H NA PRAÇA BRASIL. SAIREMOS DA PRAÇA BRASIL ÀS 19H. E VAMOS ATÉ O PRÉDIO DO SECRETÁRIO DE CULTURA QUESTIONAR PESSOALMENTE NO MEGAFONE O QUE ESTÁ ACONTECENDO.

Porque estamos prestes a entrar num período aonde cultura em São Bernardo vai ser festival de verão no riacho, festival do vinho, festival italiano e tudo o que grandes empresas puderem patrocinar.

A CIDADE TEM PULSO CULTURAL, MUITO ALÉM DISSO. CENAS INDEPENDENTES. PÚBLICO FREQUENTADOR.

A prefeitura já não financia projeto de ninguém que eles não gostem. Tudo bem. Agora, silenciosamente aprovar privatizações que no fundo vão nos silenciar a longo prazo? NÃO!

E AÍ SECRETÁRIO DE CULTURA ADALBERTO DAL GUAZZELLI?
E AÍ PREFEITO ORLANDO MORANDO?”




quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

DESMONTE DA UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO


Recebemos e, pela gravidade do fato que envolve não só este caso de desmonte da Universidade Metodista de São Paulo, mas também todo o sistema educacional brasileiro, divulgamos os documentos abaixo, com nossa adesão e manifestação de repúdio


CARTA ABERTA À SOCIEDADE DOS ALUNOS DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO SOCIAL DA UMESP SOBRE O DESMONTE DA UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO


A Universidade Metodista de São Paulo, instituição de ensino entre as mais respeitadas no país, demitiu, a partir de 7 de dezembro, mais de 60 professores em nome do que denomina “saneamento” necessário. Os cortes ocorreram sem qualquer reunião prévia – e mesmo posterior -  com os estudantes e sem um comunicado oficial para informar os motivos e de que forma a comunidade acadêmica seria afetada por tais medidas.

No Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social (PósCom), os cortes foram responsáveis pelo desmonte de um programa prestes a completar 40 anos de vida e referência nacional e internacional em nossa área. O corpo docente contava com 11 professores. Destes, 5 foram demitidos e 3 optaram por sair por conta do desmantelamento de um projeto que ajudaram a criar. Com essas saídas, o programa ficou com apenas 3 docentes.

Mesmo que a gestão atual da Umesp contrate novos professores, consideramos impossível a reconstrução do PósCom dentro dos padrões de excelência educacional e de pesquisa praticados antes das demissões. Um novo Programa poderá ser até criado, mas será completamente diferente daquele reconhecido nos mercados nacional e internacional e que foi escolhido pelos atuais alunos e recém aprovados no processo seletivo.

Se a Umesp sinaliza tratar um projeto de educação como um mero produto, cabe ressaltar que não foi este o “produto” escolhido por nós discentes. Escolhemos um Programa de excelência construído e formado pelos docentes e pesquisadores: Elizabeth Gonçalves, Cicília Peruzzo, Daniel Galindo, Herom Vargas, José Faro, José Marques de Melo, Marli dos Santos, Magali Cunha, Paulo Rogério, Sebastião Squirra e Wilson Bueno. Um corpo docente, ressaltamos, reconhecido no mercado por sua trajetória, produção acadêmica, dedicação a nós pesquisadores no que diz respeito tanto à condução das respectivas disciplinas como no processo de orientação. Este foi o corpo docente que nos atraiu para a Universidade Metodista de São Paulo e pelo qual optamos.

Nosso acesso a esta respeitada Universidade se deu por meio de muito esforço para vencer o processo seletivo. Nós a escolhemos dentre outras instituições igualmente respeitadas em razão de um projeto de educação e do corpo docente responsável por ele - o Programa que nos foi oferecido, que queremos, fizemos por merecer, e, vale ressaltar, que pagamos por ele.

Muitos de nós esperamos pela chance de contar com a disponibilidade de uma vaga para a orientação com esses docentes, conhecidos pelo alto padrão na pesquisa, no ensino e na extensão, renomados dentro e fora do Brasil. Entendemos que uma instituição tem o direito de demitir seus profissionais. Mas, neste caso, não se tratou de uma única substituição, mas de um Programa inteiramente desmontado – de forma arbitrária, não negociada, autoritária, imposta e sem passar pelos Órgãos Colegiados.

Em mais uma prova de desconsideração da gestão atual da Umesp, esta abriu um processo seletivo para novos alunos se inscreverem no PósCom 15 dias antes da primeira demissão. Além disso, iniciaram o período de matrícula para os alunos que já faziam parte do Programa, disponibilizando especificamente para as disciplinas oferecidas os professores que seriam demitidos poucos dias depois, como comprovam os atestados de matrícula de muitos alunos.  Má fé? No mínimo!

Com o desmonte do PósCom, dos 98 alunos atuais, 77 estão sem orientador nesse momento e 20 vão defender suas dissertações e teses até fevereiro próximo, sem contarem com qualquer tipo de orientação e sem saberem quem irá compor suas bancas. A gestão atual da Umesp alega que tal situação neste momento não compromete o trabalho uma vez que se trata de um período de férias. Nós, porém, sempre contamos com a participação efetiva dos professores – sempre envolvidos e prestando orientação a seus alunos independentemente da época do ano.
Não aceitamos isso como desculpa!

Quando fazemos um mestrado ou um doutorado, escolhemos um orientador de forma meticulosa e planejada, baseando-nos em sua trajetória. Com ele, estabelecemos desafios profissionais e teórico-metodológicos, mas, principalmente, criamos laços afetivos e construímos parcerias que se refletem na qualidade da pesquisa empreendida. Mais do que uma relação meramente pedagógica, trata-se de um compromisso assumido por ambas as partes e que resulta em dissertações e teses que ajudam a sistematizar e a consolidar o conhecimento científico de nossa área.

A demissão de nossos orientadores pode levar a rupturas de nossos projetos e a influenciar negativamente o processo de construção e de entrega dos trabalhos. Além disso, as demissões no PósCom podem eliminar os grupos de pesquisa que muitos de nós alunos fazíamos parte e que geravam credibilidade e renome à Instituição.

Desde que o desmonte foi iniciado, a gestão atual da Umesp não dialoga com os alunos de forma coletiva. Nas vezes em que ocorreram encontros não foi dado qualquer esclarecimento e, a cada questionamento, as respostas foram evasivas e incongruentes.  Somos um coletivo unido. Não nos imaginavam tão fortes. Conquistamos ampla repercussão na mídia. Estamos mobilizados. E vamos lutar pelos nossos direitos de todos as formas possíveis.


São Bernardo do Campo, 22 de dezembro de 2017
Grupo de estudantes do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo



Ao Conselho de Administração da UMESP
Dos Conselheiros do Conselho Nacional de Educação


Preocupam-nos os acontecimentos expostos na imprensa nacional acerca da expressiva demissão de professores do corpo docente da Universidade Metodista (UMESP), campus de São Bernardo/SP. Há informações sobre demissões após legítimas manifestações de insatisfação de docentes por conta de atrasos nos vencimentos, bem como por declaração contrária a fechamentos de cursos e outros prejuízos pedagógicos e educacionais para a Universidade e para o corpo discente, sobretudo na pós-graduação. Sabe-se que a Escola de Comunicação, Educação e Humanidades, seus cursos de graduação e pós-graduação e seus docentes inspiram preocupação haja vista a sua situação dramática.
A Constituição Federal de 1988, Art. 5o, expressamente regula o direito e a liberdade de expressão (IV), de reunião (XVI), e de associação (XVII), assim como o Art. 207 instituiu no país a "autonomia universitária", visando justamente a capacidade de autodeterminação e autonormação, tendo em vista as finalidades gerais da Universidade, qual seja, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.

A legítima manifestação dos docentes contra a "redução de carga horária" e contra o "fim da autonomia universitária" é amparada pela legislação, e constitui indício da qualidade do corpo docente da UMESP e do seu compromisso com a qualidade do ensino e os serviços prestados pela Universidade, que tantas contribuições já trouxe ao país.

E causa ainda perplexidade a demissão do Prof. Luiz Roberto Alves, tendo em vista a sua extensa prestação de elevadíssimos serviços à UMESP e ao país, tendo ocupado cargos de relevância local, regional e nacional, a exemplo da Secretaria de Educação de São Bernardo e do Conselho Nacional de Educação, onde foi Presidente da Câmara de Educação Básica. Intelectual brilhante, pesquisador dedicado e cidadão íntegro, devotado à causa da educação nacional e seus desdobramentos para os destinos do país, Luiz Roberto Alves é merecedor de estima e respeito pelos que consideram a educação elemento chave na constituição de um país fraterno e solidário.

Em pese a gravidade do cenário econômico no país, a educação deve ser vista como a solução para os nossos problemas. E sem educadores do porte de Luís Roberto Alves, essa tarefa fica ainda mais distante e difícil de ser plenamente equacionada.

Pelos motivos expostos, solicitamos revisão das demissões, e conclamamos a UMESP a dialogar com os docentes e alunos na busca por soluções que não signifiquem abrir mão do patrimônio arduamente construído ao longo de décadas. Perde a UMESP, perdem seus alunos, perde a educação, perde o Brasil.



Arthur Roquete de Macedo
Francisco César de Sá Barreto
Gilberto Gonçalves Garcia
Ivan Cláudio Pereira Siqueira
Joaquim José Soares Neto
José Francisco Soares
José Loureiro Lopes
Malvina Tania Tuttman
Márcia Angela da Silva Aguiar
Nilma Santos Fontanive




terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Duda, o operário letrado - em forma de homenagem

Dalila Teles Veras


Estive esta tarde no Cemitério da Saudade, na Vila Assunção, primeiro bairro em Santo André onde residi por nove anos. Naquele cemitério repousam inúmeras personalidades, políticas (como Celso Daniel e uma dezena de outros Prefeitos e políticos de destaque na região do ABC) e artísticas, como Luiz Sacilotto (que, para meu espanto, não consta da galeria de “ilustres” na entrada do local).

Hoje, dia 02 de dezembro de 2017, um domingo nublado, o local acolheu mais um ilustre cidadão, José Duda Costa, chamado por nós, o povo da cultura e da memória, simples e carinhosamente por Duda.



A minha parcela de ativismo cultural deu-me canseiras, contrariedades, mas muitas alegrias. Dentre elas, a felicidade de conviver com pessoas especiais, gente que se destacou por sua singularidade, jamais por celebridade ou fatos midiáticos, muito menos por qualquer espécie de cargo ou poder. Duda foi uma dessas figuras que admirei e tive a honra de receber sua amizade por três décadas.

Foi um homem simples, mas não dessa “simplicidade” que comporta alienação, desconhecimento. Não frequentou escolas superiores, desconfio que apenas as primeiras letras, mas era um grande leitor, o que o diferenciava enormemente.  Lia e decifrava, porque a sede do conhecimento e da participação social o movia. Fez parte de uma geração de operários letrados, engajados, participantes, proponentes e, naturalmente, memorialistas. Desse grupo de “operário padrão” (não naquele enquadramento do “padrão” imposto pelo patrão, mas no da demanda da própria classe trabalhadora, do qual faziam  parte  (e com eles tive a honra de conviver e prezar de amizade), o Philadelpho Braz (hors concours) e muitos outros que já nos deixaram. Alguns deles, temos ainda a sorte de conviver como João de Deus e Alberto Braz (irmão gêmeo de Philadelpho).

A biografia singela de Duda pouco diz do homem que a protagonizou. Nascido em Garanhuns, PE, em 1934, filho de um lavrador que possuía um armazém de secos e molhados (aqui, minha identificação de origens imediatamente assimilada).  Órfão em tenra idade, aos 11 anos, foi para Recife morar com uma irmã casada, onde trabalhou como mecânico. Em 1948, como tantos seus conterrâneos, veio para São Paulo, uma viagem épica, no chamado “pau de arara”,  aventura que ele contava sempre com muita graça. Aqui, veio trabalhar em Santo André, onde teve inúmeros empregos (Fábrica de Doces, cobrador em empresa de ônibus, garçom, cozinheiro e, finalmente, com a vinda das grandes indústrias, operário metalúrgico no então nascente e fervilhante mercado de trabalho (trabalhou na International Harvestes Máquinas, General Eletric e Volkswagen). Tinha conhecimentos de desenho mecânico e fez carreira exitosa nessas empresas. Na Volkswagen, onde trabalhou por 18 anos até sua aposentadoria, foi inspetor de Qualidade do Departamento de Prensas.

Conheci Duda nos primórdios do GIPEM – Grupo Pesquisadores da Memória, fins da década de 80, contato que foi aprofundado na preparação do I Congresso de História do ABC, realizado em 1990 com a inauguração do Museu de Santo André. Sua prosa fácil e bem humorada, recheada de boas histórias era isca fácil à amizade. Foi um frequentador assíduo da Livraria Alpharrabio, participando com muita propriedade das atividades ali realizadas.

A partir daí, eu e muitos outros amigos (muitos dos quais compareceram hoje ao seu sepultamento) nos acostumamos à presença de Duda em todos (sim, TODOS) os movimentos em pról da Memória e preservação do Patrimônio Cultural e Arquitetônico, assim como em todos os 14 Congressos de História do ABC, dos quais participou não só na organização, mas como debatedor, depoente, incentivador e entusiasmado partícipe.



O último deles, já muito debilitado, em Rio Grande da Serra, há pouco mais de 20 dias. Foi conduzido até ali pelo amigo João de Deus que o acarinhou com desvelo durante todo aquele segundo dia do Congresso. Mostrava-se feliz o nosso Duda, estava entre as pessoas que falavam a sua língua, a língua fraterna da memória. Foi sua última aparição pública. A sua presença foi verdadeiramente grata e saudade por todos que ali estavam. 

Viveu lindamente os seus 83 anos. Deixa uma linda família, composta pela Dona Glória, com quem casou há 60 anos, seis filhos, netos e bisnetos. Deixa também um espólio composto por objetos responsáveis por seu conhecimento enciclopédico sobre música popular e clássica (milhares de fitas K7, LPs, CDs), livros sobre os mais diversos assuntos de seu interesse, em especial, biografias. coleções das quais muito se orgulhava e gostava de mostrar aos amigos que o visitavam, recebidos com bolo e chá de maracujá de Dona Glória. Deixa, sobretudo, a memória inesquecível de sua presença como cidadão participante da vida de sua cidade e de sua região.








Duda vive. Viva Duda!