segunda-feira, 7 de junho de 2021

Noventa anos!


                                                                                                           

Alexandre Takara

        Por favor, cumprimentem-me. Hoje, 4 de junho, comemoro  noventa anos de existência. Uma sensação estranha me domina: a de  estar às portas da eternidade. E do esquecimento. Ingresso na última década da minha existência. Talvez, forçando um pouquinho, passe dos cem anos. Mais tempo de vida, menos tempo de vida. Segundo a mitologia cristã, farei um breve estágio no purgatório para, depois, ingressar no céu. Minha Beatriz me conduzirá. Ao inferno, tenho certeza, não irei. Porque não cometi pecados mortais. No máximo, o furto de alguns livros na livraria durante a minha juventude. Um dia, fui flagrado e, envergonhado, nunca mais cometi esse delito.

    Quanto a contravenções penais, cometi às centenas, se não aos milhares. Ultrapassei o sinal vermelho do trânsito; joguei papel na rua, emporcalhando a cidade; blasfemei; soltei palavrão, elogiando a mãe de alguém; colei nas provas escolares. E, quando alguém cometia uma infração no trânsito, o elogiava: - aí, batuta. Quem não é contraventor? Ah! Os nossos delitos de todos os dias. Não me consta que contravenções são motivos para ser conduzido ao inferno! Nem sei se está na lista de pecados.

    Hoje, em virtude de problemas de mobilidade, dificilmente saio do meu apartamento. Deste promontório, qual navegante, contemplo as ondas encapeladas da cidade: o caminhar de gentes, miríades de falas, o ronco dos motores. Essa massa sonora invade a minha privacidade. Dela, me esquivo, plantando o meu jardim no meu latifúndio de quatro metros quadrados da varanda. A copa das mini árvores como de manjericão, orégano, salsinhas e  cebolinhas – abafa o som das ruas. Assim, posto em silêncio, leio, escrevo e sonho.  Sei o resultado: uma crônica ou um conto.

    A procura de palavras leva-me a um texto de Rubem Braga. Ou de Rubem Alves. Talvez ao Carlos Drummond de Andrade. Sei quem me aguarda na esquina para um papo:  Machado de Assis. Falamos sobre seus contos - Uns braços, Missa do Galo e Conto de Escola. Dom Casmurro me conduz, pela enésima vez, à alma tortuosa de Bentinho. Assim, vou me estimulando a criar um novo texto. Talvez uma crônica ou um conto. Ainda não tenho fôlego para escrever um romance. Um dia, quem sabe...

    Faço um levantamento de atividades que não fiz e deveria ter feito:

        1) um texto sobre a dissertação de mestrado a respeito do Museu de Santo André e a Difusão da memória cultural local que a Rosi Rampazo  defendeu  na ECA/USP. Minha omissão me incomoda;

        2) Outro silêncio me incomoda. Agora, sobre a tese de doutorado de Suzana Cecília Kleeb na Universidade Federal do ABC sobre -Metamorfoses da Sociabilidade brasileira: Estudos nas configurações territoriais da Bocaina (Vale do Paraíba, SP) e do Lago de Sobradinho (Bahia).

        3) Inseri um texto pobre (que me envergonha) sobre Dalila Teles Veras e sua fiel escudeira Maninha na administração e na promoção de ações culturais no Alpharrabio Espaço Cultural. Inclui esse texto no meu último livro – Professor, Detesto Suas Aulas! e a Reforma do Pensamento.  Elas merecem um texto mais substancioso, tanto fazem em favor da animação cultural no ABC. A região as aplaude. Elas sabem do motivo da pobreza desse texto:  ausentei-me do Alpharrabio por mais de uma década, em virtude de meus problemas de mobilidade e dores na coluna vertebral, motivo de me faltarem informações atualizadas.

       Além do meu silêncio sobre os trabalhos da Rosi Rampazo, Suzana Cecília Kleeb, Dalila e Luzia Teles Veras, gostaria de escrever uma história do Colégio Singular/Anglo Vestibulares, cujo Departamento de Cultura, embora iniciado pelos professores Flávio Alarsa e Carlos Straccia (in memoriam), eu e a Mônica Cardella demos sequência ao longo dos anos de 1985 a 2000.

    Preciso falar a respeito com Paulo Roberto De Francisco e Paolo Gamboji, diretores do Singular/Anglo, municiado de documentos, reportagens, depoimentos , fotografias, entrevistas, inclusive um TCC – Trabalho de Conclusão de Curso, de uma aluna da ECA/USP sobre o Teatro Singular. Aliás, o diálogo com Paulo e Paolo tinha sido iniciado, mas foi interrompido pela pandemia de coronavírus. Precisamos retomar.

    Não podemos adiar muito a tratativa porque, conforme já exposto, ingressei, hoje, na última década da minha vida produtiva. Tenho memórias sobre o Singular/Anglo desde os primórdios, quando foi fundado em 1966 e a região do ABC ingressava na modernidade industrial com a instalação da indústria automobilística e da indústria química. Sou mais do que testemunha da História do Singular/Anglo, sou um dos protagonistas. Caso eu morra, uma fonte de informações terá se silenciado. Será uma pena porque o Sistema Singular/Anglo é um projeto pedagógico bem sucedido. Enquanto aguardo uma reunião com Paulo Roberto e Paolo, curto a trajetória da minha vida. Envelhecer é ingressar no labirinto do tempo.




    Noventa anos. Quase um século. Poucos atingem essa idade. O que aprendi de essencial ao longo da minha existência? Apenas palavras através da leitura e da escrita e de meus mestres.   Este o motivo de tornar-me professor. Sou o semeador de palavras. Sei que muitas palavras caíram  o deserto e morreram. Outras sobre o solo fértil e germinaram; cresceram  e produziram frutos.

    Nesta idade outonal, três palavras tornaram-se mais presentes no meu cotidiano: silêncio, solidão e santidade e seus fundamentos: espiritualidade, transcendência e empatia. 

    O silêncio tem vários sentidos: o do omisso que não quer envolver-se com nada. Há também o silêncio de quem protesta. Neste caso, o silêncio fala. Há palavras nesse silêncio. Há um sentido implícito no não-dito. O silêncio é a respiração das palavras. Para ouvir o silêncio, é preciso desenvolver a escuta sensível. Escutar significa estar atento para ouvir o outro. O prefixo e do verbo escutar ( como o prefixo ex do verbo exteriorizar) dá o sentido e o movimento ao verbo: de dentro para fora. É preciso estar  preparado para dentro para ouvir o outro. E estar preparado significa intersubjetividade e transpessoalidade. Assim, a escuta sensível é um trabalho sobre si mesmo – preparar-se para ouvir o outro. Então, eu sou, ao mesmo tempo, o ser-que-fala e o ser-que-escuta. Um jogo de espelhos. Assim, se estabelece a  comunicação no sentido de tornar comum um ação, um pensamento, um sentimento. E comunicação se efetiva  quando duas ou mais pessoas sabem e gostam de ouvir, sabem e gostam de ser ouvidos. Então, as pessoas atingiem um grau elevado de escuta sensível, resultante da congruência entre vivência, consciência e comunicação. Neste sentido, silêncio é comunicação.  

    Há solidão e solidão.

    A solução da loucura exclui o próximo. A solidão do misantropo  repulsa o semelhante e se fecha em si mesmo e não se comunica; A solidão do desesperado  o leva ao suicídio. Há também a solidão de cidadãos nas cidades, mineralizados na sua humanidade. O homem não foi criado para essas formas de solidão, mas tornaram-se. Para eles, a solidão equivale à tristeza e ao isolamento. 

    Tão apaixonado pela leitura, que tenho uma fortuna – uma biblioteca rica e variada que, se vender, pouco vale. Mas, lá estão as aventuras dos homens. O que deveria ter feito e não fiz?

                

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